1 de abril: o dia em que até a agenda me prega partidas

Há dias que nascem tortos por vocação. O 1 de abril, por exemplo, acorda sempre com um sorriso maroto, desses que já anunciam que nada do que disser deve ser levado demasiado a sério. É o único dia do calendário que chega com aviso prévio: “Atenção, hoje ninguém é de fiar”. E, ainda assim, caímos. Todos os anos. Com a mesma elegância trapalhona de quem já devia saber o guião de cor.

O curioso é que o Dia das Mentiras não é, na verdade, sobre mentiras. É sobre expectativas. Sobre a nossa fé quase infantil de que, por um dia, o mundo pode ser mais leve, mais brincalhão, mais absurdo e que nós podemos ser tudo isso também, sem pedir desculpa. É uma espécie de Carnaval tardio, mas sem máscaras elaboradas: basta uma frase bem colocada e um ar sério.

E depois há aquela mentira clássica, a mais antiga de todas: “Eu não caio nessas coisas”. Essa, sim, é universal. Dizemo-la com convicção, como quem acredita que desta vez o truque é novo. E, no entanto, basta um amigo com talento para a teatralidade, um aluno com timing perfeito, ou um familiar com excesso de criatividade para nos desmontar em segundos. A verdade é que ninguém está imune ao encanto de uma boa história, mesmo quando vem com aviso de “mentira à vista”. Que o diga o meu pai, eterno alvo das partidas descaradas da minha mãe… e riam-se os dois como se fosse sempre a primeira vez.

No que a mim diz respeito, foi o próprio 1 de abril que me passou a perna e logo pela manhã.

Último dia de reuniões de avaliação na escola. Eu, organizada como sempre, consulto a agenda e confirmo, reunião às 08:30, com o bónus de ser secretária. Lá vou eu, a primeira a chegar, como é habitual, para uma sala vazia.

Nas escadas, cruzo-me com um colega a descer, ar cansado, a dizer: “Bolas! A reunião era às 10:00 e só cheguei uma hora e meia mais cedo!”

Depois dos bons dias, respondo-lhe, muito solícita: “Estavas com medo de não ter lugar, não?”

Pois. Adivinha quem também estava enganada. Adivinha quem também tinha acordado cedo demais. Adivinha quem também estava ali às 08:30 para uma reunião que só começaria às 10:00.

Sim, eu. Obrigada, 1º de abril. Desta vez, nem foi preciso recorrer à lista de partidas da minha mãe.

No fundo, o Dia das Mentiras não é sobre enganar. É sobre brincar com a realidade. É sobre lembrar que a imaginação e o acaso também gostam de tirar um dia para fazer das suas. E que rir de nós próprios é, muitas vezes, a forma mais elegante de dizer a verdade.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.

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