A coreografia do tempo (versão escolar)

O tempo não anda

O tempo escorre:

desce pelas paredes da escola, pinga nos intervalos,

escapa‑se pelos bolsos como migalhas de um lanche esquecido.

E eu, fingindo estar parada, sou denunciada pelo meu corpo:

o pé bate no chão, o pensamento acelera,

o coração transforma-se na batuta de um adágio acelerado.

Há dias em que o tempo corre:

move-se tão depressa que quase tropeço nele.

Outros, fica sentado ao meu lado,

indolente,

como se estivesse à espera de

quem não vem.

Então, invento uma dança silenciosa e fico

a ouvir o barulho do mundo

a mexer-se

de

va

gar.

O movimento não é feito só de pernas e de braços

mas de um ingrediente que nos muda por dentro

quando ninguém está a ver:

é a coragem que cresce um milímetro por dia,

é a dúvida que se estica como elástico,

é o medo que aprende a respirar fundo.

Às vezes, o movimento é tão pequeno

que só o tempo interior o percebe.

E o tempo, esse eterno distraído,

gosta de brincar comigo:

empurra-me para a frente quando quero ficar,

puxa-me para trás quando finalmente avanço,

abre portas que nem sabia que existiam,

fecha janelas que ainda tinha abertas,

dança fora do ritmo e obriga-me a inventar passos novos,

desmontando o relógio e espalhando as horas pelo chão

só para ver o que faço com elas.

Mas talvez seja assim mesmo:

uma dança secreta entre o que passa e o que se mexe.

O tempo a desenhar caminhos,

o movimento a inventar passos,

eu, no meio, a tentar não perder o equilíbrio

entre o que já fui

o que ainda não sei ser

e que talvez ainda seja.

No fim, descubro que não há uma ciência cronológica que me explique isto.

Só este corpo inquieto,

esta cabeça cheia de geografias (in)distintas,

esta vontade de partir sem saber as coordenadas

antecipando sempre a alegria de chegar.

Talvez viver seja isto:

uma dança invisível,

eu acertando o passo

dentro do meu tempo

conduzindo o tempo

no tempo do meu movimento,

ensaiando vezes e vezes sem conta

até à dança final.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.

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