Dia Internacional do Livro Infantil

Se há frase que me tira do sério é esta: "Esse livro não é para adultos, isso é para os pequenos". Como assim? Sim, conhecemos todos as gavetas onde a indústria arruma os livros: géneros literários, idades recomendadas, etiquetas que tentam organizar o caos. Mas quando falamos de literatura infantil, esse território é para ser visitado por qualquer pessoa, em qualquer fase da vida. É mesmo um daqueles casos em que a escala vai dos 0 aos 90.

Há um momento curioso na vida adulta: aquele em que percebemos que deixámos de ler livros infantis. Não foi uma decisão consciente. Não houve um dia em que disséssemos “a partir de agora, só literatura séria”. Simplesmente aconteceu. Crescemos, fomos promovidos à secção dos livros sem ilustrações, e nunca mais voltámos atrás.

E, no entanto, há algo de profundamente suspeito nessa ideia de que os livros infantis são “para crianças”. Como se a imaginação tivesse prazo de validade. Como se a ternura fosse um músculo que deixamos de precisar de exercitar. Como se a simplicidade, essa coisa tão difícil de alcançar, fosse um estágio inferior da linguagem.

O Dia Internacional do Livro Infantil chega sempre como um lembrete discreto, quase envergonhado, de que talvez tenhamos sido nós, os adultos, a abandonar primeiro as histórias, e não o contrário. Porque as crianças continuam a lê-las com a mesma fome de sempre. São elas que ainda acreditam que um livro pode mudar o dia. Ou o mundo. Ou, pelo menos, o humor de alguém.

A literatura infantil tem esse poder raro: o de nos devolver ao essencial. Não precisa de grandes teorias, nem de frases que se alongam para parecer profundas. Diz o que tem a dizer com a honestidade de quem ainda não aprendeu a disfarçar. E talvez seja por isso que tantos adultos a evitam, porque a honestidade, quando é simples, costuma ser desconfortável.

Um bom livro infantil não fala apenas de animais que conversam ou de aventuras improváveis. Fala de medo, de coragem, de perda, de amizade, de diferença, de tudo aquilo que continuamos a viver, mesmo depois de crescermos. Só que o faz com uma delicadeza que a literatura adulta, tantas vezes, parece ter desaprendido.

Celebrar este dia não é apenas celebrar as crianças. É celebrar a possibilidade de reaprender a olhar. De voltar a abrir um livro que cabe numa mochila pequena e descobrir que, afinal, ainda temos espaço para nos espantarmos. É admitir que, por muito que cresçamos, há perguntas que só um livro infantil sabe fazer e respostas que só ele se atreve a dar.

A literatura infantil devolve-nos ao essencial: ao espanto, à curiosidade, à coragem de olhar o mundo sem filtros. E talvez seja por isso que continua a ser um território para todas as idades, porque nos pede algo que a vida adulta tantas vezes esquece.

Como avisa José Gomes Ferreira em As Aventuras de João Sem Medo: “Proibida a entrada a quem não anda espantado de existir.” “E, para mim, não há melhor porta de entrada para esse espanto do que um livro infantil.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.

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