Se Vasco da Gama se viu aflito para chegar à Índia, imaginem o professor, em plena sala de aula, a tentar que os alunos não se afoguem quais náufragos no meio do oceano Índico.
Ser professor nunca foi tarefa fácil, mas a missão torna‑se quase épica quando o conteúdo é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Se o navegador enfrentou monstros marinhos, nós enfrentamos algo bem mais temível: a distração dos alunos do século XXI, criaturas simpáticas, é certo, mas com uma resistência natural a tudo o que cheire a “clássico”.
E como se isso não bastasse, ainda temos de lutar contra as memórias traumáticas dos pais desses mesmos alunos: “Ui, Os Lusíadas foi a obra mais difícil do meu liceu!”, “Só de pensar naquelas figuras de estilo…”, “Massacre da gramática!”, e outras pérolas que não ajudam em nada à causa camoniana.
Num tempo em que “navegar” se tornou viral, mas apenas nas redes sociais, quem suspira pelo fim da viagem é o professor. Será assim tão difícil perceberem o quão extraordinária é a epopeia? Que é uma oportunidade rara para rever quem somos, quem fomos e quem ainda podemos ser? Uma lição de autoestima nacional, servida com versos que atravessaram séculos?
Sim, fomos grandes e continuamos a orgulhar-nos disso. Que o diga Camões, que ainda hoje parece sussurrar: “Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.”
E alevantam-se, sim senhor… mas são os alunos, ao toque de saída, respirando de alívio por terem sobrevivido a mais uma aula. O último ainda ouve a voz do professor ecoar no corredor:
“Não se esqueçam do TPC, questionário da página 75!”
* Por ocasião dos 500 anos do nascimento do poeta Luís Vaz de Camões.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.
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