Da Anita a Pessoa: a viagem de uma leitora

As leituras que me deram mundo, coragem e casa.

A minha história como leitora começa muito antes de eu saber que um dia escreveria as minhas próprias estórias. Começa numa capa cor‑de‑laranja, no manual do 1.º ano, onde as letras ainda eram pequenos enigmas e cada página tinha o cheiro de descoberta. Lembro-me de o abrir como quem abre uma porta nova: tímida, curiosa, com aquela sensação de que algo importante estava prestes a acontecer. E aconteceu. Ali, entre desenhos simples e palavras que eu ainda tateava, nasceu o meu primeiro mundo.

Depois veio a Anita e com ela, a certeza de que os livros podiam ser companhia, aventura e espelho. Ela ensinou-me a pedalar sem medo, a nadar com confiança, a entrar na cozinha da mãe como quem entra num laboratório mágico. Mostrou-me que podia ser destemida, curiosa, sonhadora… mesmo que o meu nome fosse outro. Nas suas páginas encontrei sempre um lugar onde cabia inteira, onde nunca me senti só. Hoje já não tenho esses livros comigo, mas sei que continuam vivos nas mãos da minha sobrinha e da sua filha e isso basta para que permaneçam na prateleira mais luminosa da minha biblioteca afetiva.

Lembro-me também de um livro pop‑up da Cinderela. As personagens erguiam-se da página como se me chamassem pelo nome, convidando-me a entrar na história. Talvez tenha sido aí que percebi que a leitura é feita de emoções, cheiros, memórias, um lugar íntimo onde cada um de nós se constrói.

No 2.º ciclo descobri o universo dos quadradinhos: Tio Patinhas, Mickey, Pateta, a Turma da Mónica. Era o melhor dos dois mundos: palavras que se transformavam em imagens e imagens que me devolviam a alegria da leitura. Mais tarde, tornei-me fã da Mafalda, a eterna contestatária que ainda hoje levo para a sala de aula para acender debates e provocar pensamento crítico. E, claro, os gauleses Astérix e Obélix, sempre prontos para mais uma aventura. Por essa altura, também viajei com o Júlio, o David, a Ana, a Zé e o Tim, guiada pela mão de Enid Blyton.

A adolescência trouxe outros mundos: o mistério da caravana de Patrícia, a vertigem sombria de Christiane F., e, em sala de aula, o deslumbramento imediato por Fernando Pessoa, um amor literário que nunca arrefeceu. Já A Sibila ou Eurico, o Presbítero não me conquistaram na altura. Nem Garrett, nem Camões. Só mais tarde, na universidade, consegui escutar verdadeiramente o que tinham para me dizer.

Foi também na universidade que descobri o prazer de me perder nas livrarias. Aprendi que não podia levar todos os livros comigo, mas podia habitá-los por instantes. Nos alfarrabistas encontrei tesouros, como a minha edição de capa vermelha d’ Os Maias, que ainda hoje ocupa um lugar de honra na estante. Desde então, perdi a conta aos livros que li e aos autores com quem caminhei. Os nacionais e os estrangeiros. Os sérios e os leves. Os que me fazem voar e os que me fazem chorar. Os que me obrigam a pensar e os que me devolvem a casa. Os que me sussurram para voltar a eles, como se cada releitura fosse uma primeira vez.

No fim, percebo que cada livro que passou por mim deixou uma espécie de luz de presença que me continua a nortear. Não leio apenas para fugir ou para aprender: leio para me reconhecer, para me reinventar, para me lembrar de que o mundo é sempre maior do que aquilo que consigo ver. Talvez seja por isso que volto sempre às páginas, como quem regressa a um lugar onde sabe que o esperam. Porque, no fundo, os livros não são apenas histórias: são as marcas invisíveis do caminho que me trouxe até aqui.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.

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