Eis que chega a Páscoa e sinto que estou a participar num ritual antigo sem qualquer manual de instruções. Todos parecem saber o que fazer, menos eu. E talvez seja por isso que gosto tanto desta época: porque é feita de pequenos segredos, tradições que sobrevivem por teimosia e perguntas que ninguém faz em voz alta com medo de não receber a prendinha da madrinha.
A verdade é que a Páscoa é um daqueles lugares onde a lógica tira férias. Misturam-se símbolos que nunca se conheceram, histórias que se cruzam sem pedir licença e rituais que herdámos sem perceber bem de quem. E, no meio disso tudo, há sempre uma avó que diz “é assim porque sempre foi assim”, como se isso resolvesse o enigma universal.
Mas há curiosidades que ninguém conta.
Dizem que simboliza renascimento, mas eu suspeito que é também a forma mais elegante de lembrar que a vida é frágil e, ao mesmo tempo, cheia de possibilidades. Um ovo é uma promessa fechada. Talvez por isso o pintemos: para lhe dar voz. Fora os outros, os de chocolate, desses já perdemos a conta de quantos desapareceram misteriosamente.
Em muitas aldeias (não se esqueçam que sou transmontana e falo com conhecimento de causa), a Páscoa é o momento em que o tempo abranda. As famílias reencontram-se, veste-se uma toilette nova, as mesas esticam-se, e há sempre alguém que conta a mesma história do ano passado, mas com mais detalhes. A Páscoa é, no fundo, um ritual de repetição. Repetimos para não esquecer. Quanto ao cordeiro, é dispensado cá em casa, pois a mãe só gostava de cabrito!
Mesmo quem não é religioso sente qualquer coisa naquela escuridão acesa por velas. É como se o mundo respirasse mais devagar. Como se estivéssemos todos à espera de um sinal, não divino, mas humano. Um sinal de que ainda conseguimos abrandar e, talvez até, recuperar uma amizade que se perdeu por um mal‑entendido maior do que devia.
Ninguém fala disto, mas o folar é uma espécie de abraço culinário. Cada região tem o seu, cada família jura que o seu é o melhor. No fundo, todos dizem a mesma coisa: “Gosto de ti, toma lá este pão especial com sabor a casa”. Mas sobre o folar, ou melhor, a sua produção caseira, fica para uma outra estória, com cheiro a memórias de uma infância e adolescência felizes!
Aquela sensação de que algo está a mudar, mas ainda não sabemos o quê. A primavera chega, mas ainda não desfez as malas nem se instalou nos nossos dias. As flores abrem, mas o frio insiste. É um tempo de transição e talvez seja por isso que mexe tanto connosco. É um autêntico desatino meteorológico, de manhã veste casaco, à tarde despe e à noite venha de lá uma mantinha!
No fim, percebo que a Páscoa não é sobre respostas. É sobre perguntas que regressam todos os anos, como migrantes fiéis: O que deixei para trás? O que quero renascer? O que ainda me falta iluminar?
E talvez seja isso que ninguém conta. A Páscoa não é apenas um feriado religioso, é um espelho. E cada um vê nele aquilo que está pronto para ver.

Sendo apaixonada por palavras que contam estórias e por estórias que transformam quem as lê, acredito na escrita como gesto criativo que se faz ponte afetiva, abrindo caminhos para uma cidadania mais sensível e consciente, especialmente no universo infantojuvenil, onde a imaginação tem asas e o afeto tem voz.
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